Eu e a TV Cabrália, a imagem do Sul da Bahia

Elza Ramos
Divulgação

Pensei. Refleti. Revivi. Emocionei.

O ano de 1987 foi de sucessos. A minha autoestima estava em alta! Tudo dava certo e eu, aos 27 anos, estava no auge da vida. Orgulhosa por ser arrimo de família, mãe de dois meninos lindos, bem remunerada por meu trabalho e oferecendo uma vida digna a eles. Feliz por isso. Situação confortável.

De repente surge o “boato” de que teríamos uma TV regional. Opa! Grande oportunidade de ousar. Sair da zona de conforto. Seria implantada a TV Cabrália. Pensei, eu quero.

Não precisei procurar. Manoel Cardoso, amigo de infância, irmão do coração, foi convidado para vir da TV Aratu. Massa! Minha oportunidade. Ele se prontificou a levar currículo e entregar em mãos ao superintendente Nestor Amazonas.

Fui convidada para entrevista. Com o coração aos saltos, fui entrevistada e percebi que havia grande preconceito contra mulher ocupar a função de “atendimento”. A fama era muito pejorativa. Mas era minha oportunidade de crescimento, afinal já havia trabalhado em rádio AM, FM e jornal. Televisão completaria o ciclo. Desafiei o super (intendente). Apresentei minhas qualificações e, desafiado, ele me contratou.

Eu conhecia o mercado regional. Grande vantagem diante dos outros dois contratados. Barbosa Filho e Davi Pedreira. Eles filhos da terra, mas com experiências em outras funções. Maravilha!

Juntei os meus sonhos, a minha empolgação, o meu profissionalismo, a vontade de vencer e fui ao mercado... sucesso! Eu não vendia. O mercado comprava. E eu aproveitava a onda e vendia muito, que nem água. E os cifrões apareciam dançando em minha frente. Só que a emissora ainda não havia tratado da remuneração. Qual a comissão? Eu fechava os contratos, mas não os entregava enquanto não fosse acordada a política de remuneração.

Foi um alvoroço!!!!!! Eu só informava ao ambicioso Rafael, diretor comercial, com quais empresas estava negociando. A inquietação se instalou e, após um mês em que eu cobrava uma decisão “deles”, informei que não houvesse imediata resolução, me desligaria e, com registro de autônoma, entregaria os contratos já assinados e ganharia 20% de comissão.

Eles morderam a isca e dois dias após, sentamos à mesa para negociar com o Deputado Federal Constituinte Luiz Viana Neto; o Superintendente Nestor e o Diretor Comercial Rafael. Três raposas, contra três jovens. E desses três jovens, só eu tinha a responsabilidade com uma família. Bati duro, não aceitei o proposto, argumentei, discuti, os dois colegas aceitavam o que eles propunham, e eu firme. Quando os três mosqueteiros viram que não haveria acordo sem grana, recuaram, deixaram de lado o argumento do pioneirismo, deslumbramento com o novo e o deputado (um mão de figa) cedeu. Eu não demonstrava, mas por dentro gritava de alegria. Ali estavam impressas muitas vitórias.

Para oferecer um efeito surpresa, saquei da pasta de couro doze contratos já assinados e um deles com o fabricante Coca-cola, num valor astronômico. Daquele dia em diante TODOS na emissora sabiam quem era Elza Ramos, a Dama de Ouro.  E eu, vaidosa e um tanto quanto arrogante, me sentia nas nuvens e trabalhava duro e cada vez mais. O céu era o limite.

De setembro a dezembro foi uma correria sem fim. Os planejamentos não funcionavam muito bem. As regras não estavam estabelecidas. Fomos participando da construção das normas, dos procedimentos. À exceção dos bam bam bans  que vieram como “estrelas” de televisão: Nestor, Kenji, Segal, Manoel, Péricles (Manuta), Iarandu e Juscelino, todos os demais éramos marinheiros de primeira viagem. Um deslumbramento. Fazíamos parte da história da imprensa regional. O máximo!!!!

E assim, em 12 de dezembro de 1987, foi inaugurada a TV Cabrália- a imagem do sul da Bahia. Todos os funcionários empolgados, vibrantes, felizes, lindos em suas becas de ver Deus. E com toda essa empolgação, saímos juntos para comemorar, no Chão de Estrelas. Bebemos e comemos tudo quanto podíamos. Eu, boêmia escolada, mandei separar o meu consumo. Paguei e fui-me embora pra Ilhéus.

 Na segunda-feira, primeiro dia de funcionamento da TV, uma loucura pelos corredores, dois motivos: o primeiro dia de TV no ar ao vivo e o BO da astronômica conta deixada no Bar Chão de Estrelas, pelos funcionários que extrapolaram no consumo e na empolgação.

E assim todos aterrissaram na real. O conto de fadas acabou e a luta do dia a dia teve início, com muitas histórias por virem... e hajam histórias!

A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá